Surgido em 1981 o Diretório do Partido dos Trabalhadores de Viçosa do Ceará, nasceu dentro das Comunidades Eclesiais de Base, numa simbiose que era difícil identificar onde terminava a fé e onde iniciava-se a política.Eram ecos da Teologia da Libertação que tomava fôlego desde os encontros da cúpula eclesial de Medelim (1968) e posteriormente Puebla (1979), quando a Igreja Católica, que então se esquerdizava, fez a opção preferencial pelos pobres.
Ao contrário do PT nacional, eminentemente urbano e operário, como é o caso do PT paulista, como resposta ao processo de redemocratização nacional (1980) e à Crise do Estado, com todas as mazelas do desemprego daqueles anos de estagnação econômica o PT de Viçosa surgiu com outras aspirações e outros ideais, principalmente o resgate da cidadania e a inclusão política de categorias sociais marginalizadas. Para ter um exemplo mais claro, considere-se o próprio Sindicato dos Trabalhadores Rurais que permaneceu desde os anos da Ditadura Militar (64/84) atrelado (ou pelego) às estruturas e aos interesses dos chefes políticos, dos empregadores, produtores rurais e poder municipal ligado ao PDS/ARENA, sem nenhuma representatividade de setores mais amplos dos agricultores.
O PT de Viçosa (e de toda a Região da Ibiapaba) foi e ainda é um partido de bases rurais e eclesiais. Tomou corpo e forma com incentivos e formação política patrocinados pela Diocese de Tianguá, através do MEB, quando era bispo Fr. Timóteo, OFM² , que não obstante ser filho da elite latifundiária do Ceará, era homem sensível à causa dos pobres.
No governo de dom Timóteo, entre 1971 a 1990, prosperou com grande vigor os movimentos de “Catequese Renovada” cujo financiador externo eram as instituições católicas alemãs Adveniat e Miserior.
Talvez tenha razão um comentarista de blog, afirmando que o PT teve como pai “o movimento sindical, e a mãe, a Igreja Católica, através das Comunidades Eclesiais de Base. Os orgulhosos padrinhos foram, primeiro, o general Golbery do Couto e Silva, que viu dar certo seu projeto de dividir a oposição brasileira. Da árvore frondosa do MDB nasceram o PMDB, o PDT, o PTB e o PT.”, complementando que “outros orgulhosos padrinhos foram os intelectuais, basicamente paulistas e cariocas, felizes de poder participar do crescimento de um partido puro, nascido na mais nobre das classes sociais, segundo eles: o proletariado. O PT cresceu como criança mimada, manhosa, voluntariosa e birrenta” e que “não gostava do capitalismo, preferia o socialismo. Era revolucionário. Dizia que não queria chegar ao poder, mas denunciar os erros das elites brasileiras. O PT lançava e elegia candidatos, mas não “dançava conforme a música”. Não fazia acordos, não participava de coalizões, não gostava de alianças. Era uma gente pura, ética, que não se misturava com picaretas”. ¹ Mas isso foi há muito tempo....
Assim o PT de Viçosa nasceu um partido de gente simples, agricultores e agricultoras oprimidas pelo sistema local, excluídos da participação política da direitista elite viçosense que até os dias atuais amarra-se a valores extremamente tradicionais. Não havia nos seus quadros intelectuais universitários dos grandes centros urbanos, mas agricultores e agricultoras que se engajavam e despertavam aos pouquinhos à criticidade da “leitura do mundo” à luz das teorias paulofreirianas utilizadas pelo MEB³.
Prosperou em pequenos núcleos rurais e sede de CEB’s, lendo a “palavra de Deus” contida na Bíblia Pastoral - com notas de rodapé - e cotejando-as com a vida cotidiana (Ver/Julgar/Agir). Podemos citar como mais atuantes as comunidades do Juá dos Vieiras, Pé-do-Moro (Padre Vieira), Cacimbão, Buíra e Tope. Atuavam aqueles companheiros como os primeiros cristãos, com temor de represálias do poder eclesial e político local.
Ao longo dos anos muitos companheiros e companheiras já “conscientizados” tiveram de fugir daquela luta e daquela terra e ter que migrar para os grandes centros do sul-sudeste em busca da garantia de sobrevivência.
Apesar da oposição da igreja paroquial local, tenaz combatente do “comunismo” (não obstante o apoio do bispo, às práticas socialistas dessas comunidades) estas resistiram desde a sua fundação, bem como aos afagos da “direita”, sempre tentando coaptá-las ao redil (para não dizer curral eleitoral). Essas comunidades sofreram as vinganças dos alcaides e parlamentares eleitos que sempre preteriram aquelas comunidades em favor das que lhes eram fiéis. Todavia elas aprenderam a resistir de forma heróica, se reinventando e inventando meios de sobrevivência, como por exemplo, da associação de mulheres que passaram a produzir e comercializar o refrigerante de cajú de forma semi-industrial sob a liderança da guerreira Terezinha do PT e o apoio dos demais companheiros, como por exemplo o companheiro-compadre Zé Maria Isaías, presidente por anos do Diretório.
Já em 1986 conseguiu votos de seus filiados e simpatizantes, para o jovem advogado João Alfredo Teles Mello, que militava em questões agrárias e que tinha na Ibiapaba uma de suas bases eleitorais (eleito deputado Estadual com 9.588 votos), e poucos votos em José Ilário Marques (eleito com 6.086 votos). Todavia o desempenho eleitoral nas urnas sempre foi sofrível, embora forte ideologicamente, e se repetirá nos anos seguintes sem grandes avanços numéricos.
A “urbanização” do PT viçosaliano vem acontecer de forma muito lenta, gradual e tímida. – Se é que conseguiu se urbanizar. Mesmo as investidas das caravanas estaduais pelas feiras-livres nos dias de sábado não passavam de uma "agitação" passageira, sem deitar raízes.
Somente um pouco antes das eleições presidencias de 1989 - até por força da grande mídia que popularizava e apoiava novas ideologias - consegue penetrar dos lares da urbe, tendo ali a participação de Liliane Carvalho, Caíque e Iracema Vasconcelos, que eram “apóstolos” da Igreja e da “Catequese Renovada” e em 1989 quando um novo grupo jovens idealistas (mas um tanto porra-louca) abraçou a causa Lula, com unhas e dentes, sem ainda serem filiados ao partido. Qual grupos proselitistas batiam de porta em porta atrás de votos, realizavam algumas reuniões comunitárias, discutiam política nos botecos e colavam propaganda eleitoral nas paredes noite adentro, e chavam que um dia, como que por milagre a esquerda, chegaria no poder e tudo seria como "O Reino dos Céus ".
No segundo turno das eleições de 1989, com a coligação nacional com o PDT achegaram-se os funcionários dos bancos, particularmente os do Banco do Brasil, alguns comerciantes e Chico Alípio. Mas essa aliança durou pouco. Passados as emoções de 1989 cada qual esfriou e foi se recolher ao seu cantinho, esquecendo a neo-ideologia de momento.
A HISTÓRIA CONTINUA
1 Fonte : http://homemculto.wordpress.com/2009/12/17/a-historia-do-pt-partido-dos-trabalhadores-origem-do-pt-frei-betto-o-triunfo-da-pelegada-pt-cebs-igreja/
2 (Francisco Nemésio Cordeiro, 1928-1990),
3 MEB – Movimento Eclesial de Base
1 Fonte : http://homemculto.wordpress.com/2009/12/17/a-historia-do-pt-partido-dos-trabalhadores-origem-do-pt-frei-betto-o-triunfo-da-pelegada-pt-cebs-igreja/
2 (Francisco Nemésio Cordeiro, 1928-1990),
3 MEB – Movimento Eclesial de Base
Texto de wlpv. Este mesmo autor foi Presidente do Diretório Municipal (1990/92)
0 comentários:
Postar um comentário