segunda-feira, 28 de novembro de 2011

OPINIÃO: A ALMA DE UM POVO ESTÁ EM SUAS LENDAS

A alma de um povo está em suas lendas, em seus mitos, em seus símbolos. Quando essas lendas são esquecidas o espírito de pertença de um povo está morto.

Lendas não se inventam de uma ora para outra, são coisas contadas ao longo do tempo e que se incorporam no imaginário de uma determinada civilização.

Encantam, alegram, às vezes assustam, mas são elas, as lendas, que como argamassa une o passado ao presente e remete ao futuro.

Sem elas os edifícios sociais caem, diluem-se em massa sem significados. Cria-se um vazio que não será preenchido. Nossa civilização tem triturado as suas lendas.

São essas alegorias que nos fazem viver. São elas que nos fazem sonhar e sermos nós com nosso espírito nativo de filhos e filhas das matas e florestas: Mamelucos e caboclos travestidos de brancos.

Acabar com as lendas é como matar o povo e tirar-lhes aquilo que mais importante existe em sua sociedade, é tirar daquele povo a herança, o patrimônio imaterial que lhes foi deixado por herança de seus antepassados comuns.

Nao adianta "tombar" prédios ou conjunto de prédios, ou cidades inteiras se não conservamos a sua cultura. Serão apenas monumentos ocos, sem sentido, alegorias frias. É necessário cultivar, incentivar, presarvar os bens não tangíveis, não mensuráveis, não palpáveis, que são os costumes, as tradições. as lendas, as estórias de trancoso. Talvez elas sejam, ou sejam em paridade, tão importantes quanto os sítios patrimoniais materiais.

Foi pensando nisso que escrevi, aliás, fiz algumas releituras sobre as lendas tão caras ao povo do Ceará e particularmente de Viçosa, que era tão cheia de velhas estórias de mal assombrados.

Vez por outra as reedito, quase num mantra repetitivo, na esperança que elas sejam lidas por alguém e sirvam de resgate de nossa cultura que parece se perder na ganância pelo dinheiro esquecendo coisas tão importantes.

E é essa ganância pelo dinheiro que faz com que a especulação imobiliária feroz, predadora bote abaixo o que ainda nos resta de mata nativa, árvores centenárias ou não são transformadas em carvão sob os complacentes olhos dos organismos governamentais que deveriam protegê-las, mas ao contrário emitem as “licenças” que soam como uma sentença de morte à natureza.

Com as matas devastadas, os olhos d’agua sumidos os encantados desaparecem. Era ali que eles viviam.

Além de devastarem a riqueza natural, os apagam definitivamente da memória do povo.

É pena!

AS MÃES D’AGUA:

Conta-se que havia Mães d'água no Jambre, na Remelosa, no Caranguejo, no Itagurussu, no Itacaranha, no Criminoso, no Beija-flor. Não se sabe ao certo se era uma ou várias Iaras.
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Fato é que ela existia e encantou muitos meninos e rapazotes ainda sem cabelos no púbis, que sumiram... .Dizem que foram levados por ela para as locas, onde depois de ser possuída, eles enfeitiçados, se matavam ou se encantavam.
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Têm quem diga que eles viraram Brujalecos, outros dizem que Lobisomens, e mesmo dizem que se encantaram em sapos. Não se sabe, são mistérios da mata, os Pajés, com seus segredos, nunca revelaram a ninguém.

Verdade foi que certo menino, lá pelos anos de 1917, foi tomar banho no Jambre, que fica já na beira dos abismos, no meio das grotas e ouviu um canto doce vindo do olho d’agua. Foi frechado pela encantada, ficou como se tivesse bebido cachaça ou uma cuia de cauim e quase ela o seduziu, mas ele correu, correu e subiu a serra, branco de medo, tremendo as pernas. Chegou em casa com os olhos esbugalhados, febril, e por lá nunca mais voltou. Credo em cruz! Era coisa do Fute, disse-lhe a mãe.

Dizem que ela era uma mulher linda, de cabelos longos, pele morena, olhos pretos, peitos salientes e sedutores. Ora ela é gente, ora ela é peixe, mas dizem que ela também se encanta em jia e mora no meio dos sapos, que são príncipes de seu reinado.

O olho d’água de Aia, foi o ultimo lugar que se viu a Mãe d’água. Ela foi desaparecendo aos poucos, junto com o progresso, que é o nome que a civilização dá à derrubada das matas, ao desaparecimento das nascentes.
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A última vez que a viram já não era moça nova, como aparentava ser no passado, tinha os cabelos brancos, os peitos caídos. Seu sorriso já não tinha dentes, seu canto era triste e seu cheiro era o odor das capa-rosas!

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