segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A FESTA DO MENINO DEUS



Vila Viçosa, 25 de Dezembro de 1860¹

Vestidas de Encarnado e Azul as pastorinhas cantavam alegremente no adro da Matriz. Era a Noite de Nascimento de 1860:

Borboleta pequenina saia fora do rosal
Já nasceu jesus menino hoje é noite de natal
Eu sou uma borboleta pequenina e feiticeira
Ando no meio das flores
Procurando quem me queira.

Vem cá, companheiras, formalizar
Que a nossa alegria é sem igual
Trazemos o livro na mão
Que é para nos ensinar

Que a nossa escola é batuta.

Não tem, não tem igual
No palco onde dançamos
Tem todos que se alegrar
Saudades vamos deixar ²

Dona Mariana ficou agoniada por a pequena borboleta esqueceu sua fala.

Meu bom Menino Jesus,
Eu que sou a Borboleta,
Só trago pra te dar
Um raminho de......violeta!²

- Ufa, que bom que ela se lembrou! Ainda bem que foi apenas um engasgo da pequena Borboleta.

Todos riram da menina de cinco anos: Era uma graça!

O grupo não podia fazer feio. Toda a cidade estava ali, muita gente do sítio, do sertão, as casas estavam cheias, faltava armador ou "travessas" para tantas redes, os brinquedos armados no quadro da matriz estavam muito concorridos, havia até o cosmorama, que foi o sucesso daquele ano.

Nada podia dar errado e as meninas, bem ensaiadas não podiam esquecer.

Era a Festa do Menino Deus na Vila da Viçosa. A Matriz toda iluminada por dentro e por fora com lanternas à vela ou com azeite de carrapateiro cobertas de papel colorido, que se distribuíam também pelas fachadas das casas, dando um ar de festa e alegria à pequena Vila.

As famílias tinham preparado os comes e bebes. Havia muitas pessoas hospedadas em suas casas.

O forte da festa, entretanto, não era ficar dentro de casa nas na rua, onde muita gente passava a noite acordada,

Não havia Papai Noel, nem pinheiros enfeitados (aliás nem se sabia o que era isso) e os presentes eram dados pelo Menino Deus. Todos os curumins já dormiam cedo pra receber os seus: carrinhos de boi feitos da madeira do mulungu, cavalinhos talhados nos talos as folhas das carnaubeiras, bonecas de pano com carinhas de porcelana, fogões, panelinhas, potinhos, bois e jumentos com seus “grajaus”, feitos de barro pelas “loiceiras” do Tope. Para os mais velhos: lápis de cor, sabonetes, perfumes, cortes (de tecidos) chinelos, sapatos de couro, cestinhas de papel crepom com guloseimas, enfim, tudo quanto as condições locais eram capazes de oferecer.

Era dia de comer galinha assada com farofa ou à cabidela, e de longas visitas as amigos saboreando os quitutes, tais como a peta e sequilhos, bebendo alguma cridra, vinhos e licores.

O povo se divertia nas festas ou nos “sambas” ao som dos pifes, caixas e tambores e a banda de música, importada da Granja, foguetes e repicar dos pequenos sinos da matriz.

Houve a missa da Meia-Noite, a missa do galo, e havia outras missas: as duas (as matinas) e as quatro da madrugada (laudes) e à noite do 25 se seguia o novenário que estendia-se de 22 até a noite de 31 de dezembro.

No dia primeiro de janeiro a procissão do Menino Deus. A imagem toda enfeitada, deitada em sua manjedoura de palhas de carnaúba, no carrinho-andor puxado por filas de anjinhos de azul, rosa e amarelo.

Era um dia raro luminoso! Era a Noite de Nascimento de Nosso Senhor na distante Vila Viçosa.

E enfim o Dia de Reis, em 06 de janeiro, com a queima da lapinha e as cantorias das Folias de Reis com bandos cantando de porta em porta pedindo donativos: “Ô de casa ou de fora/mãe Jerônimo est’aí?/ É o cravo é a rosa é a flor do bugari/ Está casa está bem feita / Por dentro por fora não/ Por dentro cravos e rosas/ Por fora manjericão”².

Encerrava-se, assim, a festa do Menino Deus e ficava a saudade deste tempo tão belo e fraterno.

Muito diferente do que são os Natais dos tempos de hoje, com fortes influências dos costumes dos Estados Unidos da América, com seu espírito capitalista-protestante, aliado ao consumismo, que aumenta o seu grau de persuasão nestes tempos festivos, aos poucos a festa da Natividade de Nosso Senhor como o chamavam até o século XIX os Natais brasileiros naquela era de um Brasil rural eram muito simples belos e singelos, envoltos em tradições portuguesas, já misturados com os valores da terra.


1. A narrativa tentou rememorar o Natal da noite de 25 de dezembro de 1860, tendo como base o diário de viagem de Francisco Freire Alemão, membro da Comissão Científica (1859 – 1861), que esteve na Vila Viçosa entre 22 a 29 daquele ano e se encantou com a “amável Viçosa”.
2. Canções populares de pastoris.
Imagem: Montagem sobre a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção em Viçosa do Ceará, com uma única torre, com grupos de pastores e pastoras. Ao lado imagem do Menino Deus, ao gosto do barroco brasileiro.

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