segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

GENILDO ANGELIM: UM MULTI-ARTISTA DE QUALIDADE

Com o intuito de renovar o conceito de Personalidade Icoense, com pessoas da atualidade, tomo a liberdade, data vênia, de publicar matéria do Blog do Voltaire Xavier, editada em 14 de dezembro de 2011.

Genildo Angelim, o “Angelim do Icó”, é uma daquelas personalidades com múltiplos talentos. Um artista com várias facetas: É cineastra, é teatrólogo, é ator, é professor e por aí vai. Dono de um vocabulário rico e encantador, bom de papo e de idéias.

O encontrei lá por Lima Campos, ocasionalmente, na hora da peixada, que demorou uma hora e meia, mais ou menos o tempo que durou o nosso papo.

A entrevista abaixo foi retirada do Blog do Voltaire Xavier ( http://voltairecolunista.blogspot.com/ ) em toda a sua integralidade.


A Entrevista:
Fique agora com a entrevista do professor e teatrólogo Genildo Angelim. Ele é o nosso entrevistado desta quinta-feira (24) aqui no "Entre Aspas". Ex-professor desse blogueiro dos tempos do Colégio Senhor do Bonfim, onde lecionava a disciplina de Inglês, é um grande prazer tê-lo como protagonista principal de hoje aqui neste quadro semanal. Sua formação se confunde com o seu amor pelo município de Icó (CE), terra tombada nacionalmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão umbilicalmente ligado ao Ministério da Cultura. Ex-secretário de Cultura e Turismo durante a gestão do ex-prefeito tampão Jaime Júnior (DEM), dentro da cota do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual é filiado, fez um grande trabalho nos oito meses em que esteve a frente da pasta. Ator por formação, é um nome conhecido e reconhecido em todo o Ceará. Foi professor da rede estadual de ensino e atualmente se dedica a seus projetos profissionais ligados a arte e a cultura. No último ano, se envolveu muito com o cinema, onde podemos destacar a sua participação nos filmes "Passageiro Pau de Arara", de Bruno Monteiro, e "O Gato Preto", de Clébio Viriato. Já como ator fez "Sedição de Juazeiro", a primeira minissérie cearense e que se tornará um longa metragem em breve. É sobre este personagem, de bem com a vida sempre, o "Entre Aspas" de hoje. Com vocês, o irreverente Genildo Angelim.


Blog - O que o Icó representa para o professor e teatrólogo Genildo Angelim?


Genildo Angelim - Uma grande potencialidade Turística/Religiosa/Cultural ainda desperdiçada. Icó ainda não despertou para as suas reais vocações e hoje vive uma grave doença social diagnosticada pela falta de empreendedorismo e pelo distanciamento na relação com a beleza e a alegria: em mais ou menos duas décadas perdeu quase todas as suas festas tradicionais. Possui uma população desesperançada e que perde chão para outras cidades da região. É esquisito ver todo o Sistema "S" (Sesc, Sesi, Sebrae, Senac, Senai) em Iguatu e no Icó nenhum. É frustrante chegar numa farmácia de Icó e ter que esperar o remédio vir do Iguatu, ou ver nossos alunos estudarem no Iguatu. Eu, quando era professor do Estado, vergonhosamente, recebia meu salário no Iguatu. Para comprovar a cidadania, o Icoence precisa ir ao Iguatu. Somos uma sociedade falida. Até o Cabana Clube passa por um estado doentio e míngua. Mas Icó representa muito mais. Há uma relação de afeto muito grande quando eu vislumbro a Dramaticidade do Barroco Sertanejo do nosso Largo e me emociono sempre. Eu nunca atravesso o Largo do Théberge impunimente. Sou sempre arrebatado por um reencantamento que brota de todo lado. A cidade precisa voltar a ter do que se orgulhar; elevar a autoestima e junto o progresso acanhado em que vivemos. E esse reencantamento, creio, só a ARTE e a CULTURA possibilitam. Icó precisa ser cidade evento!


Blog - Como foi ser secretário municipal de Cultura e Turismo do município de Icó?


A experiência foi gratificante? Por que?Genildo Angelim - Trabalhar Cultura é gratificante em minha vida sob todos os aspectos. Eu não sei fazer outra coisa e esta passagem pela secretaria tem uma história, um porquê. Eis. Quando da eleição de Cardoso Mota, eu fui chamado por ele para preparar a pasta da Cultura. Preparei o projeto, entreguei e recebi até uma visita do saudoso Aldo Marcozzi, que me parabenizou dizendo que eu seria um ótimo secretário - Romério de "seu" Rômulo e Marcos José estavam presentes no Atêlier que mantínhamos na Rua Grande -; e viajei para realizar um espetáculo sobre a vida de São Francisco, em Canindé, durante os meses de setembro e outubro - espetáculo do qual fiz a Arte durante uns dez anos. Porém, quando a eleição foi apurada e eu voltei de minha jornada, outra pessoa já estava empossada, que era a Sra. Jeguélia Alcântara, mas, por amor a causa da Cultura de Icó, que eu sabia, precisava de uma cabeça que amasse e fosse voltada para o trato Cultural, por sua magnitude e carência, aceitei ao convite de Jeguélia para trabalhar na pasta e me dediquei inteiramente: ganhei três editais, editei festivais de teatro e de intérpretes musicais com todas as escolas públicas do Município, Icó foi a 1ª cidade do Ceará a implantar a Lei do Sistema Municipal de Teatro, recebi o prêmio do Dia Internacional de Teatro pelo trabalho de reabertura e circulação de espetáculos do Teatro da Ribeira dos Icós, época quando o Icó/ense pode assistir a inúmeros espetáculos de Fortaleza, Cariri, Aracati e de cidades vizinhas e uma companhia de teatro icoense foi se apresentar no Theatro José de Alencar. Consegui trabalhar por quase dois anos, porém, a ingerência da Prefeitura começou a afetar e atrapalhar um trabalho que estava dando certo e eu, como não grasso em hipocrisias, protestei veemente contra os desmandos absurdos e crassos e fui posto para fora com 05 meses de salários atrasados e uma Mágoa maiúscula da covardia que Cardoso fazia naqueles dias com a esperança do povo que o havia tido como um salvador e ele se lhe apresentou um irresponsável, débil e doidivanas! Icó ficou as bandas! É lógico que o circo de horrores deu no que deu: improbidades astronômicas administrativas. E eu fui de novo chamado para gerir a pasta da Cultura e trabalhei mais uns sete ou oito meses. Neste interino lutei desesperadamente para colocar energia elétrica no Teatro centenário encalhado, fazer voltar a atmosfera cultural que havia construído ocupando espaços como o Mercado Público Municipal no Projeto "Um Mercado de Cultura" e o Largo do Théberge, com espetáculos de rua, música na praça. Também dei suporte a APROARTI que é uma Associação séria e muito importante para Cultura dos artistas locais; criei o projeto Agnus Dei que, espero, entre definitivamente para o Calendário Turístico e Cultural Regional, logo mais do Calendário Estadual e, porque não, nacional.


Blog - Qual a sua opinião acerca da não continuação do projeto Agnus Dei no município de Icó, projeto inclusive criado em sua administração como gestor cultural desta terra?


Genildo Angelim - Fazer Agnus Dei dá muito trabalho! A criação de um texto, a concepção de um espetáculo, todo um fazer teatral envolve competências. A falta desta responde tudo. Porém, não ser realizado me deixou menos perplexo do que a perda de quase 70% de nossos figurinos, adereços e objetos de cena que, dos que não foram suprimidos , o que sobrou ficou apodrecido devido a má conservação. Conseguimos salvar algo em torno de trinta peças, de uma coleção de mais de duzentas!. Agnus Dei vai renascer e entrar para a Cultura de nosso povo de roupa nova!


Blog - Qual é a sua avaliação sobre a gestão da secretária de Cultura e Turismo Jeguélia Alcântara?


Que nota o nobre conterrâneo dá para a nossa atual gestora cultural?Genildo Angelim - Há duas grandes dificuldades para todo gestor de Cultura: é uma pasta com orçamentos ridicularmente restritos e o fato de, até pouco tempo atrás, não fazer parte do pensamento obtuso das administrações públicas. Tentarei responder por parábola! O que um jovem jornalista, recém formado, numa sala de cirurgia, por mais aparelhada que seja, faria? Será que conseguiria fazer uma operação qualquer? Acho que não. Não é de seu metiê e competência. Porém, se o colocarem pra fazer uma matéria sobre esta mesma sala, ele poderá se dar bem. Cada um dá aquilo que tem e o que transborda de si. A gente só ama aquilo que conhece e só faz bem feito se tiver conhecimento e amor pelo labor. E o negócio dá é trabalho!


Blog - O que falta para o nosso Teatro da Ribeira dos Icós funcionar a contento com uma programação diária e diversificada?


Existe problema de gestão na administração deste órgão público?Genildo Angelim - Vários, grandes, antigos e crônicos. Todo Teatro que se preze, no mundo todo, possui seus quatro lados livres. O nosso, pensado na Europa, já foi assim. O restauro acompanhado pelo Iphan sob os patrocínios do Programa MONUMENTA, não vislumbrou que um teatro precisa de luz e som e não puseram força elétrica suficiente no Teatro, e, o pior, mexeu drasticamente na estrutura da caixa cênica, tamanha falta de sensibilidade e imperícia dos que geriram as obras executadas num monumento secular, neoclássico no frontispício e elisabetano no seu interior. Uma lástima. Só pra ilustrar: o teatro foi reinaugurado desprovido de luz, som, cortina, perna, bambolina. Com 151 anos merecia melhor sina. Se ligar, simultaneamente, uma luz de cena e uma radiola, a força degringola. Um dos editais federais que eu ganhei, quando trabalhei na administração Cardoso, foi um Kit de Luz Cênica da FUNARTE - Fundação Nacional de Artes no valor de R$ 78.000.00 e que ainda hoje se encontra sem uso por falta de força elétrica num teatro com 151 anos e que vive subutilizado! Esta casa de espetáculo tem que virar referência, tornar-se escola e difusora de sua linguagem, porém, vive a margem. Segundo, não tem diretor e vive ao sabor do "faz aí, por favor". Antes de não haver, na estrutura pública funcional, um cargo de "Diretor do Teatro Municipal", há uma desinformação e falta de aptidão para a gestão de equipamentos. Contratar um diretor competente, que entenda de pauta, borderô, difusão, programação, divulgação. Tornar o Teatro uma casa viva, uma escola, um espaço respeitado, freqüentado, valorizado. Quando há qualidade há público. Sem haver divulgação Ariano Suassuna lotou o teatro. E, terceiro, tem que amar teatro para fazer teatro! Sem amar "fazer", como proceder? Não procede!


Blog - Na sua opinião, o Núcleo de Música Sobrado Canela Preta ainda está sendo orientado pelas suas ideias originais ou está fugindo de seu propósito inicial? Por que?


Genildo Angelim - O Núcleo de Música Sobrado Canela Preta continua sendo uma escola, porém, como toda pedagogia, precisa ser revista, reciclada, avaliada, continuada e usada como produto a ser exposto ao público. Eu penso em finais de tardes musicais no Largo do Théberge produzidos pelo Núcleo de Música Sobrado Canela Preta. Mas é uma das coisas que eu me orgulho no Icó. Certa feita levei a Banda Municipal para dentro da Câmara dos Vereadores e lá tocou-se e eu ocupei a tribuna e falei do quanto a Cultura era abandonada. A Banda não recebia uma "banda" para serem banda.


Blog - Como membro da APROARTI, o que fazer para alavancar ainda mais o artesanato icoense? Falta apoio do poder público local?


Genildo Angelim - O Artesanato da APROARTI é hoje um dos oito melhores do Ceará, segundo SEBRAE, e, na verdade, quase não temos apoio do poder público. A APROARTI, com o apoio do Sebrae, tem representado o Icó em grandes eventos, como o último Encontro Internacional de Negócios para o Artesanato, em Recife, e a FENEARTE com a participação de trinta e tantos países. Nosso maior problema, hoje, não é escoação de produtos e sim, a produção. É tudo feito a mão e ainda não temos condição de promover oficinas para formarmos mais mão de obra qualificada. Hoje temos um grupo de 20 mulheres que vivem do nosso artesanato, porém a APROARTI tem nove núcleos e o de Música é o Ponto de Cultura Criativa Musical, com estúdio sonoro de gravação e promovendo oficinas em técnicas musicais e contribuindo largamente para a economia musical solidária.


Blog - Se voltasse a gerir a Secretaria de Cultura e Turismo de Icó, o que gostaria de fazer e que não fez durante os oito meses em que esteve a frente desta pasta?


Genildo Angelim - Eu meio que já respondi quando, na primeira pergunta, falo o que Icó representa para mim e as percepções que tenho dela. Mas, tornar o Teatro da Ribeira dos Icós um Teatro Referência, de fato; dinamizar o turismo da Região num consórcio com as cidades de Icó, Orós e Iguatu - elaborei este projeto em especialização promovida pelo Ministério do Turismo em parceria com a UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina - e tentar envolver os olhos do mundo para cá, pois beleza e história a gente tem pra contar e mostrar. Falta fazer a nossa única indústria girar! A indústria do Turismo e da Cultura. E olhe que já está montada faz mais de 300 anos.


Blog - Quais os planos do professor Genildo Angelim como ator? Projetos em mente e/ou em execução?


Genildo Angelim - No último ano me envolvi mais com o cinema. Fiz a arte em dois projetos: Filme Passageiro Pau de Arara de Bruno Monteiro http://www.youtube.com/watch?v=XQy6bRRkgvY&feature=share e O Gato Preto, de Clébio Viriato, ainda em fase de conclusão. Como ator, fiz "Sedição de Juazeiro", a primeira minissérie cearense e que se tornará um longa metragem em breve! http://www.youtube.com/watch?v=sZ0bZNiwqLc . Agora respiro Agnus Dei. Quero muito fazê-lo suprir uma lacuna artística dessa terra do Senhor do Bonfim. Quero que Icó torne-se uma nova Nova Jerusalém do Sertão do Ceará. Possibilidade e Know how a gente tem. Basta fomentar. O poder público precisa se integrar e fazer.


Blog - Suas considerações finais e agradecimentos.


Genildo Angelim - Deixo uma frase do dramaturgo Mapurunga como reflexão para a nossa situação. E olhe que ele, aqui, não viveu, mas, astuto, percebeu: "Uma cidade que resistiu à seca, à fome, as guerras, ao cólera e as intenções políticas de legá-la ao esquecimento." Do livro - Bem Vindo ao Reino do Louro e da Peixada.



Obs. Entrevista publicada pelo Blog do Voltaire Xavier em dezembro de 2011.


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