quinta-feira, 10 de março de 2016

PROCISSÃO DOS PASSOS DO RECIFE





I. INTRODUÇÃO:

Nos últimos dias de quaresma a tradição católica desde a Idade Média, em forma catequética, incentiva (ou pelo menos incentivava, até as reformas pastorais de orientação modernizadora do Concílio Vaticano II), atos de piedade, voltadas à representação da Paixão de Cristo, que por vezes Passos da Paixão de Cristo, Vias Sacras ou Via Crucis com suas estações.

As procissões penitenciais, que faz memória do percurso de Cristo, desde o Horto das Oliveiras até seu sepultamento, que podem variar de 7, 14 ou 15 estações (ou passos), e o no último caso (15) a Ressurreição, cujo modelo foi adotado pelo papa João Paulo II  na noite da Sexta-feira Santa de 1991, no Coliseu, em Roma, quando o Pontífice resolveu estabelecer um maior vínculo entre as Estações da Via Sacra e os Evangelhos, cujas informações sobre a paixão de Cristo encontra-se dispersa pelos mesmos evangelhos.

Uma dessas tradições é a Procissão de Nosso Senhor dos Passos do Recife, também conhecida em muitos lugares como “procissão do encontro”, em razão de que um dos “passos” da procissão consiste no encontro da imagem de Jesus carregando a cruz encontrar-se com a imagem de sua mãe (Nossa Senhora das Dores ou Nossa Senhora da Soledade), com apenas, até então, constituída com os Sete Passos, tradicionalmente utilizados deste a instituição da procissão em 1654, data em que foi criada a Venerável Irmandade do Bom Jesus dos Passos do Corpo Santo.

Segundo MILFON (2013), “a tradição de sete igrejas no curso de peregrinações e procissões penitenciais é uma referência à cidade de Roma, a cidade das sete colinas, adaptada por Portugal e trazida para as cidades coloniais brasileiras, dos quais Recife incorporou com exatidão,cuja “lógica vivenciada pelo percurso do peregrino tornou-se reflexão para compreensão da cidade a partir do primeiro ano do pontificado de Sixto V (1585-1586). A cidade de Roma era planejada sob a égide de um urbanismo monumental de caráter religioso. O plano idealizado pelo pontífice e executado por Domenico Fontana, um dos grandes arquitetos da Renascença, previa o enlace das igrejas mais importantes e outros pontos centrais da cidade, norteados pela lógica vivenciada pelo percurso do peregrino que orientou a configuração do urbanismo em Roma”.



        II. OS PASSOS DO RECIFE:

     A Procissão dos Passos da Paixão de Cristo do Recife é uma das mais antigas manifestações cívico-religiosas do território brasileiro que se mantém viva. Certamente uma das últimas remanescentes das expressões culturais das antigas Confrarias Religiosas do Pernambuco do Século XVII, e como tal adota o modelo de Sete Passos, sendo: 1ª O Horto das Oliveiras; 2ª A Prisão; 3ª A Coluna; 4ª A Cruz; 5ª A coroação de espinhos; 6ª A Sentenaça e 7ª O Calvário.




      É um modelo de religiosidade popular trazida de Portugal, e de influência da Espanha com seus elementos barrocos, que as Confrarias Religiosas (Irmandades e Ordens Terceiras) desenvolviam com grande esplendor.

     
      III - AS ANTIGAS TRADIÇÕES:
      No Recife e Olinda, durante séculos, houve várias Procissões Quaresmais, tais quais a de Cinzas promovida pela Ordem Terceira de São Francisco, que "tinha laivos carnavalescos"(9) e a do Triunfo, promovida pela Ordem Terceira do Carmo, "com imensa pompa e longo acompanhamento. Levava catorze andores com cenas da paixão de Jesus" (9) e outras que foram sendo suprimidas. Ora pela falta de espiritualidade destes eventos, transformados em mera ostentação de poderio, rivalidades entre as Confraias, uma não "queria ficar por baixo" da outra, e pela própria decadência das irmandades e confrarias desde o final do século XIX e principalmente diante do modelo de igreja proposto pelo Concílio Vaticano II. .




(Imagem primitiva do Senhor Bom Jesus dos Passos, já existente em 1654)

      Todavia,
"Eram várias as procissões: das Chagas, dos Martírios, do Bom Jesus dos Pobres Aflitos, do Encontro, dos Passos, do Triunfo, do Enterro, da Ressurreição. Cada uma no seu bairro, da sua igreja, com seus admiradores e partidários. Algumas boliam com a cidade inteira. As cocheiras botavam para a rua todos os seus carros, de boleeiros metidos em sobrecasacas de botões dourados, cartolas, luvas. Os bondes da Caril e as maxambombas traziam gente pendurada nos estribos e nas portinholas. Desde a lordeza da Madalena e da Linha Principal ao pessoal pobre de Afogados e Santo Amaro, todos confluíam para o centro a fim de apreciar as mesmas cenas e os mesmos aspectos de todos os anos. Porque se há espetáculo que não mude é o das procissões". (10)

      Resta, nos dias atuais na cidade do Recife, apenas três tradicionais procissões: A que ora relatamos, que já não tem o esplendor antigo, a "Via Sacra Pública", saindo da Matriz da Boa Vista para a Igreja da Santa Cruz do Bom Jesus da Via Sacra, nas Sextas-Feiras Santas, que em tempos de outrora era realizada no penúltimo domingo da quaresma, e com uma perspectiva

 bem diferente da orientação "pastoral" atual e a Procissão do Senhor Morto, que sai da Matriz de Santo Antônio. .


         IV - A PROCISSÃO DOS PASSOS DO RECIFE E SUA VENERÁVEL IRMANDADE.


     Foi criada em 1654, juntamente com a Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. ³ " Além do aspecto religioso, a Procissão dos Passos está ligada à história política e sócio-cultural do Brasil. 
     A primeira Procissão dos Passos foi realizada em pagamento de uma promessa dos comandantes militares portugueses e brasileiros vencedores da Guerra Holandesa. Em 1654, na Igreja Matriz do Corpo Santo, então existente no bairro do Recife, o mestre de campo Francisco Barreto de Menezes, André Vidal de Negreiros, Antônio Dias Cardoso e João Fernandes Vieira, fundaram a "Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos do Corpo Santo", o que seria o embrião do Exército Brasileiro. 
     No mesmo ano realizaram-se as procissões do Encerro e dos Passos, saindo da sua igreja sede para a igreja do Convento de Nossa Senhora do Carmo, de Olinda" 1 http://iconacional.blogspot.com/2008/05/pensamento-de-eckhart-tolle.html


      Mario Sette em sua obra Maxambombas e maracatus, assim descreve a Procissão dos Passos

"A procissão dos Passos sempre teve no Recife honras de esplendor e de fama. Marcava mesmo uma etapa do ano. Um mês antes, quem dispunha de recursos, tratava de encomendar o vestido de seda preta lavrada ou de gorgorão. As mocinhas contentavam-se com as cambraias de seda com salpicos. As matronas exigiam dos maridos as capas de damassé com vidrilhos e as severas capotas com enfeites de veludo. Dos guarda-roupas para o banho de benzina saiam croisés e fraques de casemiras negras. Quem morava em rua onde passava o cortejo, tomava precauções. Era preciso robustecer a munição da dispensa. As famílias amigas e os parentes não faltavam. No Recife quieto e silencioso desse tempo, ao quebrar do meio-dia começavam as igrejas a dobrar.Não havia bondes elétricos, nem caminhões, nem automóveis de escapação aberta para infernar os ouvidos, e, por isso, o toque das igrejas tomava ares de um escândalo de ruídos. Os livre-pensadores queixavam-se, explodiam. As irmandades passavam, de cruzes alçadas, para o Carmo. Na quinta-feira era a procissão chamada de encerro, porque a imagem do Senhor dos Passos ia do Corpo Santo ao Carmo, coberta. Ao escurecer, o Corpo Santo iniciava os seus dobres lentos, dolorosos, tristes. As ruas do velho bairro do Recife pouco a pouco se movimentavam e o comércio em grosso fechava por completo. Grupos iam se adensando pelas calçadas e pelas pontes. Varandas enchiam-se. Punham-se nas janelas e sacadas castiçais com velas protegidas por mangas de vidro. Nos Arcos da Conceição e de Santo Antônio havia também muitas luzes. Os vetustos sobradões da rua da Cadeia, de ordinário fechados e desertos, ganhavam uma vida que eles só haviam conhecido em épocas mais remotas. O longo, belo e tocante cortejo noturno saía por volta das 7 horas e vinha se estendendo pela ponte do Recife para ganhar o bairro vizinho. Duas imensas e tremulejantes fileiras de barandões acesos com umas angélicas de papel de seda resguardando as chamas. Entrava pela rua do Crespo, transpunha a pracinha, enfiava-se por Cabugá e Nova... Em todo trajeto gente muita à espera. A imagem de Jesus, velada por um dossel de seda roxa, era carregada pelos oficiais da Guarda Nacional. Via-se apenas a ponta da cruz de fora. Músicas, povo. E um cheiro de incenso que ficava depois por alguns momentos nas ruas vazias... No outro dia, à tarde, voltava o Senhor dos Passos à sua igreja. O comércio cerrava as portas mais cedo. Nas esquinas os mesmos grupos clássicos de mulheres que vinham de longe e traziam crianças que choramingavam. Todos queriam "pegar canto". Velhotas arengando. Moleques tomando pagode com as beatas de lenços brancos nas cabeças e de balandraus ruços. Rodavam carros com famílias lordes. Abriam-se varandas de primeiros andares que serviam de depósitos das lojas. E enchiam-se os prédios da rua da Cadeia, da rua do Cabugá, da rua Nova... Iam transitando anjos procedendo das casas das "vestideiras". Algumas eram célebres em São José e tinham muito osto em fazer as saias armadas, bem redondas, ensinando as crianças a gingar, - fazer o "passo" dos querubins. Afinal surdia a procissão, depois de uma expectativa de duas ou três horas, ouvindo os sinos e espreitando a boca da rua.- Lá vem o pendão?- Minha gente! Corra!- Vem perto! Havia sempre alguém lá por dentro e todos acorriam à varanda. Aí é que era o pega para arranjar canto. Os mais sabidos já estavam abancados. Os donos da casa sempre ficavam por trás, trepados em cadeiras. E o grande pendão, com o seu S. P. Q. R. que o povo traduzia por "sopa, pão, queijo, rapadura", passava seguro pelo Rodrigão, o homem mais alto do Recife. Em seguida os guiões das Almas e do Sacramento.", (in Mario Sette- Moxambolas e Maracatus Secretaria de Educação e Cultura, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Prefeitura da Cidade do Recife, 1981 - 252 páginas). 

(Três imagens de Jesus Flagelado usadas nas estações dos Passos, de possível autoria de Manoel da Silva Amorim - Recife, 1780 - 1873).
       Com o passar dos séculos a Procissão dos Passos foi adequando-se às novas realidades, mas persistindo heroicamente até os dias atuais, distantes do século XVII e da hegemonia católica, todavia continua com os mesmos elementos tradicionais e a força viva de seus membros.



(Imagens de Santa Maria Madalena e Nossa Senhora da Soledade, componentes do último passo, o Calvário), e possível autoria de Manoel da Silva Amorim - Recife, 1780 - 1873). 


   Hoje um dos grandes desafios dessa irmandade e de sua Procissão dos Passos é a sua continuidade, particularmente pela incorporação de jovens, diante do mundo secular, onde as tradições, típicas da hegemonia católica de outrora, mudaram o seu vértice para do âmbito cultural-religioso.

      O declínio dessa salutar tradição arraigada por 363 anos na identidade recifense, poderá ser mais uma vez motivo da cidade do Recife ir perdendo a sua própria identidade, e mergulhando cada vez mais no espírito do mundo globalista, e a própria Igreja Católica local viver apenas de monumentos históricos sem vida e gente, como já acontece em várias cidades da Europa secularizada .


REFERÊNCIA E CITAÇÕES:

1 - http://www.fisepe.pe.gov.br/cepe/supl/html/mat5.htm2. Coelho, Beatriz. Devoção E Arte : Imaginária Religiosa Em Minas Gerais. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo , 2005;3. Freyre, Gilberto, and Luís Jardim. Guia Prático, Histórico E Sentimental Da Cidade Do Recife. 1934, pag. 20. 4 - Fernando Pio - em Roteiro de arte sacra. Rio, de Janeiro: MEC, 1960, 131 p. il., p. 52 5. Fonte: http://www.fisepe.pe.gov.br/cepe/supl/html/mat7.htm; 6. As obras de Manoel da Silva Amorim, identificadas através de documentos relativos a pagamentos, segundo o historiador Fernando Pio foram elaboradas entre 1835 e de 1871, portanto, até dois anos antes da morte. A imagem do Senhor dos Passos é da primeira metade do século XIX. 7.PIO, Fernando. Imagens, arte sacra e outras histórias;. Recife, 1977. 8. CASCUDO, Luís Câmara, Literatura oral no Brasil – Ed. José Olímpio, 1952 – 2ª edição, Rio, 1978 . 9. PEREIRA, José Carlos. O encantamento da Sexta-Feira Santa: manifestações do catolicismo no Brasil. http://books.google.com/books?id=uij69YoStB4C&pg=PA122&dq=prociss%C3%B5es+quaresmais+%2B+recife&hl=pt-BR&cd=3#v=onepage&q=prociss%C3%B5es%20quaresmais%20%2B%20recife&f=falsehttp://www.jangadabrasil.com.br/marco19/pn19030c.htm 10.SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus) http://www.jangadabrasil.com.br/abril20/pa20040b.htm Ler mais sobre o assunto: http://www.fisepe.pe.gov.br/cepe/supl/html/mat5.htm Chamadas: Confrarias religiosas, Irmandades, Ordem Terceira, Recife, Brasil solonial, expressões culturais imateriais confrarias irmandades recife pernambuco

MILFON, Magna Lícia Barros. O processo de transformação da cidade do Recife através da prática urbana dos percursos festivos. 2013. Dismonível em:< http://unuhospedagem.com.br/revista/rbeur/index.php/anais/article/view/4608> Acesso: 22 fev. 2017.
Matéria atualizada em 04.03,2017.

segunda-feira, 7 de março de 2016

PERSONAGENS HISTÓRICOS: ANTONIO FRANCISCO PEREIRA, O BARÃO DE BUJARI


Antonio Francisco Pereira, o Barão de Bujary, nasceu em Recife, Pernambuco por volta de 1801 e faleceu no Engenho de Bujary, Goiana, PE, em 06 de dezembro de 1868.
Segundo o "Diccionario chorographico, histórico e estatístico de Pernambuco", publicado pela Imprensa nacional, 1908, o topônimo Bujary, de onde origina-se o título nobiliárquico, significa na linguagem indígena o “ Logar de arvore de conóa, ou que boiahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Francisco_Pereira.

Membro do Partido Conservador, da ala progressista, http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Alfredo_Correia_de_Oliveira tendo sido um dos mais destacados políticos do segundo reinado em Pernambuco, representando a região da Zona da Mata Norte e Goiana, tendo tido impasses com os sesmeiros circundantes ao Rio Goiana, que dificultavam a sua navegabilidade, de forma que "Em 1853 foram feitos estudos necessários para fazer a canalização do Rio Goiana até o porto de Jacaré, no rio Cabibaribe-mirim, aproveitando assim o braço desse rio que passa em Goiana, cujo orçamento atingiu, para aqueles tempos, a elevada quantia de 5:600$000" (in Povoamento, hegemonia e declínio de Goiana, de Ângelo Jordão, p.187)
Era filho de Portugueses, radicados em Pernambuco já no Século XVII e teriam participado da Insurreição Pernambucana de 1645/48. Segundo tradições familiares o mesmo tinha um irmão gêmeo de nome Francisco Antonio Pereira ou Francisco Antonio Pereira de Carvalho. O Pai, comerciante, e os dois irmãos, ainda adolescentes, teriam participado da Revolução Pernambucana de 1817, e teriam embora Portugueses, apoiado os insurrectos, razão pela qual teriam saído do Recife, rumo à Paraíba, já ingressando nas forças reinóis, temendo represálias da coroa portuguesa, que castigava os rebeldes com severidade.

Por volta de 1827 o Sr. Pereira (1) pai de Francisco Antonio e Antonio Francisco ter-lhes-ia comprado dois imóveis : O Engenho Maraú, para Francisco Antonio e Engenho Bujary, para Antonio Francisco. Certamente o negócio foi feito aproveitando o período de crise e instabilidade política do primeiro reinado, as conturbações geradas pós Confederação do Equador, o declínio do preço do açúcar e as questões abolicionistas que eram pauta do dia.
O antigo Engenho Bujary está ligado à Confederação do Equador, tanto no abrigo de revolucionários (09.09.1824) (4) e como também na noite de 29 de novembro de 1826 quando serviu de pousada para o Presidente Temporário da Paraíba Felix Antonio Ferreira de Albuquerque e confederados presos do Ceará em direção a Pernambuco, que dali fugiram nessa mesma noite. No meio desses presos estavam Frei Caneca, que absteve-se da fuga confiando no beneplácito imperial http://www.vestibular1.com.br/revisao/confederacao_equador_II.doc.



Ainda com relação ao Engenho de Bujary, cronistas do século XIX dizem "O engenho Bujari, pertencente ao presidente da Câmara Antonio Francisco Pereira, é muito bela, descortinando-se a grande várzea de Goiana" (2) http://books.google.com/books?id=4nE8AAAAYAAJ&q=%22descortinando-se+a+grande+v%C3%A1rzea%22&dq=%22descortinando-se+a+grande+v%C3%A1rzea%22&hl=pt-BR&pgis=1
.
Já o engenho Maraú fora um histórico latifúndio açucareiro edificado a partir de 1714 pelo Frei de Santa Clara, OSB e pertencia aos Monges Beneditinos. Sua capela é de 1724 e foi concluída em 1752. Segundo crônicas D. Pedro II hospedou-se nesse engenho que está localizado em Cruz do Espírito Santo. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cruz_do_Esp%C3%ADrito_Santo
.

Senhor de Engenho por volta de 1831, Antonio Francisco recebe a patente de Coronel da Guarda Nacional, substituindo, assim, as funções do Exército Imperial que entrava em declínio.

Por volta de 1850 a 1865 foi o Presidente da Câmara Municipal de Goiana, rivalizando com João Joaquim da Cunha Rego Barros, terceiro barão de Goiana (1796 - 28 de novembro de 1874), inimigos políticos, apesar de pertencerem ao mesmo partido. (in João Alfredo, o estadista da abolição).


Conforme o Conselheiro João Alfredo (1835/1915), que fora menino criado em Goiana, à sombra das brigas políticas dos coronéis - que seriam barões - em sua obra "Minha meninice & outros ensaios", nos informa que"alguns senhores de engenho mais atuantes conseguiram ascender à nobreza imperial sendo agraciados com o título de Barão", como o de Goiana (3 baronatos) e o de Bujari (baronato único). O Baronato vem-lhe pelo Decreto de 23 de novembro 1867, concedendo o título de Barão de Bujari, título esse Referendado por José Joaquim Fernandes Torres, então Ministro da Justiça, no Palácio do Rio de Janeiro.

Fato notável, que a tradição narra, foi fuga a cavalo do engenho Maraú para o engenho Bujary, de sua sobrinha Herotide Senhorinha da Conceição Pereira. Conta-se que a mesma, fugiu da casa do pai, montada em um cavalo no meio da noite buscou amparo na casa o tio. O motivo da fuga teria sido a imposição de um casamento arranjado, como era costume da época, mas que ela julgava indesejado. Esse fato levou-lhe a intriga de vários anos com o irmão gêmeo, intriga essa que se desfez poucos anos antes dele morrer.



Pelo ato de coragem da sobrinha, que fugiu do engenho Maraú (5), onde residia o seu pai o coronel Francisco António. O tio passou a admirá-la em face a sua intrepidez. A mesma permaneceu na casa-grande de Bujari ou Bujary, casando-se com seu primo legítimo, primogênito do Barão, o Major Antonio Francisco Pereira de Carvalho Filho, que faleceu com apenas 34 anos em 18.06.1871, "desse casamento restou vários filhos que foram criados pelo Avô materno em Itapuá, já que a mesma contraiu novas núpcias com o Sr. Manoel Vieira Bernardes contrariando os dogmas familiares dai também houve descendentes”. (2) O segundo consórcio de D. Herotide ocorreu em 14.09.1871, na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, em Goiana (In Anuario genealógico latino da Federação dos Institutos Genealógicos Latinos, 1952, p 33)
Segundo informações o Barão de Bujary foi senhor de vários outros Engenhos: Bujary, Japomim, Catu, Pedreira Calugy e Batatã, que foram divididos entre os herdeiros.
O Barão de Bujary, morreu aos 67 anos em 06 de dezembro de 1868: "Óbito do Barão de Bujari, pelo Vigário de Goiana: Aos sete de Dezº de mil oitocentos e sessenta e oito falleceo da vida prezente de ‘camara de sangue’ o adulto Barão de Bujary Ant° Fre° Pereira, branco, de idade sessenta e oito annos, solteiro" (in Anuario genealógico latino, p.33). A doença ali descrita era a peste do cólera morbus que assolou por todo o Brasil na década de 1860 e anos seguintes. Foi sepultado na Igreja do Amparo em Goiana, um ano após ter sido agraciado com o cobiçado título.
Conforme o seu atestado de óbito registra, nunca casou-se e morreu solteiro, não obstante a insistência dos clérigos goianenses, mas deixou descendência, num total de 9 filhos naturais, 02 homens e 7 mulheres. (p.33 anuário genalógico latino).
Quis o destino que o Barão não chegasse a ver implantado o sistema de abastecimento de água de Goiana, cuja solicitação de isenção de impostos de importação de "canos e mais generos que forem importados de fóra Imperio para a construção de novos arquedutos" , feita em 15 de setembro, fora-lhe negado em 24 de outubro de 1868, mas que a resposta chegaria a Goiana somente em 29 de dezembro daquele ano, quado ele já estava morto, faziam vinte dias. (in Ministério dos Negócios da Fazenda, despacho nº 462, em 24 de outubro de 1868). O fato, todavia, revela o grau do empreendorismo do rico investidor, pois o negócio seria um empreendimento particular.
Constam como filhos do Barão:
1) Antonio Francisco Pereira, Major da Guarda Nacional, falecido em 18.06.1871, que casou com Herotíde Senhorinha da Conceição Pereira. em primeiras núpcias, Casando-se dª Herotildes em segundas núpcia com Manuel Vieira Bernardes Junior, na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Goiana, em 24 de setembro de 1871.

2) Manoel Pereira;

3) Inácia Maria da Conceição Pereira, que casou-se com Inácio Borges da Costa Rios;

4) Lucia Cândida da Conceição Pereira, que casou-se com o Cap. Luiz Cavalcanti de Albuquerque;

5) Gertrudes Maria da Conceição Pereira, que casou-se com Manuel José Ferreira;
6) Felismina Maria da Conceição Pereira, que casou-se com Diogo José da Silva Coelho;
7) Mariana Amelia da Conceição Pereira, que casou-se com Hermínio Pinheiro de Mendonça Matos;
8) Maria Benvinda.da Conceição Pereira; e

f) Francisca da Conceição Pereira.

Sabe-se que imóveis pertencentes a Herotides Senhorinha, sejam alguns prédios urbanos no centro de Nossa Senhora das Neves e Goiana, foram doados a Dª Herotildes Pereira de Carvalho (+-1893 - 1979), sobrinha de Dª Senhorinha, por ocasião de seu casamento, com o maestro Manoel Florentino Nogueira de Brito (3). Do casal nasceram, entre 1905 a 1924, 08 filhos: Iornilda (Mamã), Dida, Ivandilzo (Dilzinho), Nicinha, que morreu com 17 anos, Irandilza (Badi), Iranilza (Ni) e Ivanoé Pereira de Brito, que é o pai de Ivanoé Pereira de Brito Júnior. A família morou em Goiana e na década de 30 do século passado, passando a atuar como maestro em várias cidades onde nasceram os filhos do casal e depois mudaram-se para o Recife.

1. A dedução do nome Antonio Pereira surge em virtude da presença de "António" nos dois filhos.
2. Bibliografia sobre Goiana; aspectos históricos e geográficos: aspectos históricos e geográficos
Por Genny da Costa e Silva, Maria do Carmo Rodrigues. Publicado por Comissão Organizador e Executiva das Comemorações do IV Centenário do Povoamento de Goiana, 1972. Original da http://pt.wikipedia.org/wiki/Antônio_Francisco_Pereira;
http://www.promata.pe.gov.br/internas/turismo/fotos.asp?codmun=32

HUGO CALDAS: http://hugocaldas.blogspot.com/2006_10_01_archive.html

REFERÊNCIAS:
Anuário Por Museu Imperial (Brazil) Publicado por Museu Imperial., 1945
Observações do item: v. 6-7 Original da Universidade do Texas Digitalizado pela 10 jun. 2008;

http://www.buratto.org/gens/heraldica/gn_nobrezabr.html

FOTOS:
1. Foto do Barão de Bujari pertencente ao acervo da Fundação Joaquim Nabuco, feita por Alberto Henschel http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Alberto_Henschel
2. Foto do Engenho: Promata, governo de Pernambuco.

3. Há uma rua em Recife designada de Rua Manoel de Brito em homenagem ao maestro.
4. Frei Joaquim do Amor Divino Caneca Coleção Formadores do Brasil. Por Joaquim do Amor Divino Caneca, Evaldo Cabral de Mello. Publicado por Editora 34, 2001, ISBN 8573262133, 9788573262131, 643 páginas

5. Os dados divergem entre as informações familiares e tradições orais. Vide Blog de Hugo Caldas:http://hugocaldas.blogspot.com/2006/10/o-baro-do-bujar.html

QUALQUER INFORMAÇÃO ADICIONAL FINEZA CONTACTAR COM O E-MAIL: wlpv1@hotmail.com
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_baronatos_no_Brasil

http://books.google.com/books?id=ikhlAAAAMAAJ&q=.+Lucia+C%C3%A2ndida+da+Concei%C3%A7%C3%A3o+Pereira&dq=.+Lucia+C%C3%A2ndida+da+Concei%C3%A7%C3%A3o+Pereira&lr=&ei=fIHsSfi6NZWikATC48G1AQ&hl=pt-BR&pgis=1



TEXTO E PESQUISA DE WASHINGTON LUIZ PEIXOTO VIEIRA, COM DIREITOS AUTORAIS NA FORMA DA LEI Nº 9.610/98- SE COPIAR CITE A FONTE

REFERÊNCIAS:
Salvador de Moya, Instituto de Estudos Genealógicos (São Paulo, Brazil), Instituto Genealógico Brasileiro - 1939

(2) Informações recebidas de familiares.

Texto reeditado em 22 de abril de 2009 após novas pesquisas, corrigindo-se algumas informações.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

DEVES É MUDAR DE ALMA, NÃO DE LUGAR


Geralmente diante de adversidades, as mais diversas, pensamos em mudar de endereço, de trabalho, de cidade, de bairro, enfim de ir embora, e se possível for, partir para o mais longe possível, cruzar os mares, esquecer e ser esquecido.

Por outras vezes vem o desejo de retornar para o ninho de onde outrora partimos, buscar o aconchego das pessoas queridas e amadas e que em muitos casos, nem o ninho nem as aves estão mais por lá.

Imaginamos que a simples mudança de endereço nos transformará, nos transfigurará em outras pessoas. Convictos que ao deixarmos nossos antigos endereços os pesados fardos que acumulamos ao longo da vida serão retirados de nossa existência, como que por encanto. Que os nossos velhos fantasmas interiores se dissiparão em "novos castelos".

Pensamos que em novos ambientes tudo será maravilhoso, lindo, calmo, lugar inigualável.  Seremos somente nós e a paz: Oh, ali estarão pessoas perfeitas, amáveis, compreensíveis, diferentes das que convivemos!

Tolamente nos iludimos pensando que além do horizonte acharemos nossa tão almejada paz, é lá que está a vértice do arco-íris e o nosso tesouro pessoal: O horizonte é sempre azul! Quanta ilusão!

Infelizmente somos como as tartarugas, levamos o nossos cascos atrelados às costas para onde quer que tenhamos que ir e dele não podemos nos livrar, faz parte de nós e o que temos de melhor a fazer é aprender a conviver com ele.

"Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso Vergílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios seguir-te-ão onde quer que tu vás. (...) Quando te tiveres convencido desta verdade, deixará de espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra, levando para cada uma o tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te pertence, o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando na realidade o que tu pretendes - viver segundo a virtude - podes consegui-lo em qualquer sítio”¹.

É justo que precisamos mudar. A natureza muda a cada momento, a vida é dinâmica, é a lei do devir, o ontem é diferente do hoje, “o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje"², porém imaginar que a simples mudança de lugar, ou de profissão, ou de trabalho, etc., fará mudar o nosso interior é uma ilusão, é necessário fazermos uma conversão interior, como disse com muita sabedoria o filósofo: Deves é mudar de alma, não de lugar³.




Texto de Washington Luiz Peixoto Vieira

Imagem:http://www.achetudoeregiao.com.br/animais/jaboti.htm

1 e 3 - Lúcio Aneu Séneca em latim: Lucius Annaeus Seneca; Corduba, 4 a.C. — Roma, 65 d.C.) foi um dos mais célebres advogados escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca (ou Sêneca), o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.

2. Heraclito de Éfeso (Grego: Ἡράκλειτος ὁ Ἐφέσιος—Hērákleitos ho Ephésios, Éfeso, aprox. 535 a.C. - 475 a.C.)