segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

CONTO DE NATAL: O NATAL DO PEQUENO ÓRFÃO

Era uma vez um menino órfão. Ele adorava o Natal. Era a época em que ele deixava que sua imaginação voasse para bem longe, para junto do Papai Noel e do Menino Jesus.


Esquecia toda a sua solidão imaginando que na noite de Natal o Papai Noel lhe traria lindos presentes!


Ficava pensando como foi bonito o nascimento de Jesus: Uma noite cheia de estrelas quando os pastores estavam nos distantes desertos e os anjos cantaram no céu. Ficava tão entretido que se esquecia das outras coisas que deveria fazer.


Irritada com o menino a sua madrasta lhe perguntou:


- O que estás pensando, menino?


- Estou sonhando com o Natal, madrinha. Estou imaginando como ficará bela a nossa lapinha!


- E por isso não fazes nada que te mandei fazer? Cuida em varrer o quintal e colher frutas do pomar e deixa essa estória de presépio de lado. Isso é coisa de gente desocupada. Depois trata de dar comida aos porcos, recolha as ovelhas, amarre os jumentos e dê banho no cavalo. Só depois de tudo feito poderás brincar. Estou sendo clara, menino?


Com raiva do pequeno enteado a madrasta foi até a caixa onde guardava o presépio e o jogou no lixo. Era uma forma de castigar o pobre órfão e deixá-lo triste.


Ele porém, na sua infelicidade, foi até o lixo e recolheu os pedaços dos santinhos que estavam quebrados os colou um a um e montou o presépio no fundo do quintal, no meio das plantas, para que sua madrasta não visse e não brigasse com ele.


E assim ele passava os dias que antecediam o natal brincando com a sua lapinha e podia sonhar sozinho sem que ninguém lhe perseguisse.


Porém a madrasta observava cada coisa que o menino fazia e percebeu que ele ficava muito tempo brincando no quintal, descobrindo o que ele fizera com o presépio jogado fora e ficou enfurecida.


- Vou dar um castigo neste moleque desobediente. Ele não perde por esperar, no lugar de trabalhar ele passa o tempo se entretendo com esse "bendito" presépio.


Na noite de Natal o menino esperava impaciente pelo presente que o Papai Noel lhe traria e pediu ao Menino Jesus para que ajudasse ao bom velhinho em sua longa viagem.


Quando acordou, logo cedinho no dia de Natal nada encontrou. Correu até a porta da rua para ver se o Papai Noel havia deixado alguma coisa e nada. Não tinha recebido nenhum presente.


Triste foi até o quintal, no seu cantinho de brinquedos, onde estava o seu presépio só achou cacos espalhados por todo o quintal... tentou juntá-los novamente mas não mais conseguiu.


Chorou, chorou e saiu de casa, caminhou por ruas cheias de malfeitores, por estradas perigosas , quando, de repente um grande caminhão desgovernou-se... e o menino viu uma grande luz e dormiu.


Quando o menino acordou e abriu os olhos estava sentado ao lado do Papai Noel que lhe disse:


- Vou lhe dar um grande presente de Natal, meu menino!


Então o Papai Noel o levou em seu trenó, puxados por muitas renas, percorreu todo o céu, cruzou os planetas, foi muito além e o levou para um lugar muito bonito, como ele nunca tinha visto, cheio de anjos que cantavam e tocavam harpas e ali ele encontrou, que surpresa, seu pai e sua mãe que o abraçaram ternamente e o levaram para onde havia um lindo presépio. Lá estavam São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus, que lhe acenou sorridente.


Conto de Washington Luiz Peixoto Vieira




A LAPINHA DE ALMÉRIO

Almério Silva ainda era adolescente quando viveu seus tempos de noviço franciscano, como tantos jovens nascidos na década de 1930. Era Frei Almério, da Ordem Franciscana Maior, os Frades de São Francisco, o idealizador do presépio na Idade Média, cuja ordem preserva o gosto pelos presépios em tempos natalinos.

Imagino que foi dessa experiência religiosa nas terras de Pernambuco que ele idealizou e seu presépio com milhares de peças. As casinhas que formam o cenário da natividade lembram-me os morros e subúrbios das cidades pernambucanas trepadas nas barreiras.

Montada na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, aos fundos da Expectação, por muito tempo a Lapinha de Almério foi única da igreja do Icó. Só na década de 1980 foi adquirido pela prefeitura um presépio em tamanho natural – e por sua idealização – que compunha o arco em frente ao Palácio da Alforria e hoje pertence à paróquia.

São miniaturas de santos e outras figuras de todos os tamanhos, gostos e épocas. Dezenas de bonecas de plástico vestidas de anjos, outra quantidade de camelos, bibelôs, muitos reis magos, carneiros e tantos outros bichos e personagens que foram doados para tal intento.

Ali não há compromisso propriamente estético, há o compromisso com o nascimento de uma única criança.

Não são apenas três reis magos. Está correta esta releitura, pois foi a tradição dos padres da igreja, amparado em evangelhos apócrifos que delimitou a três reis magos, pois eram sábios do oriente para ver o Messias recém-nascido e que seguiram uma estrela em busca da uma criança.

O menino é desproporcional às figuras de seus pais, Maria e José, com o significado de sua dimensão sobre a humanidade.

A Lapinha de Almério, no meio da profusão de cores e imagens traz uma mensagem teológica muito profunda: O nascimento de Jesus meio ao mundo e as profecias dessa centralidade cristológica. 

Todavia, pelo cenário, que são réplicas em miniatura das casas antigas, o nascimento de Jesus se dá na periferia do Icó. E nisso há uma contextualização do nascimento de Jesus no meio dos pobres do aqui e do agora.

Mais do que um Patrimônio Imaterial do Icó - que deveria ser tombado - traduz uma bela mensagem para o nosso tempo tão comprometido com as aparências: Mesmo diferentes os homens e as mulheres de todo o mundo e de cada local, em particular, são iguais perante o Eterno.

Obs .Almério Silva nasceu em Icó em 1924. Foi funcionário do DNER. Formou-se em sua maturidade em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito de Sousa. Foi chefe de gabinete do Prefeito Aldo Monteiro.



Matérias relacionadas:


http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=215360
http://www.youtube.com/watch?v=V1StbbxM6_w


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

RECIFE: FESTA DA CONCEIÇÃO DO MORRO

Hoje se inicia Brasil afora as festas de Nossa Senhora da Conceição. São centenas de festas, talvez milhares, umas maiores outras menores, umas em grandes catedrais, outras em pequenas capelas rurais. Todavia, o meu olhar como ser social está no Recife, é da festa do Morro da Conceição, pois é na imediação deste lugar geográfico que moro e vivo o clima “místico” que invade o Bairro de Casa Amarela e de uma forma geral a Zona Norte do Recife e irradia-se pela cidade inteira.

Diferentemente de outras festas religiosas católicas em que os fiés deslocam-se das periferias para o centro, a festa do Morro da Conceição faz exatamente o percurso inverso: Do centro e dos bairros ricos para a periferia.

De certa forma a Nossa Senhora da Conceição do Morro resgata a figura da Maria de Nazaré histórica, mulher da periferia e a história de Jesus, quando o poder estabelecido sai do centro do poder político e religioso do então Israel do século I da era cristã, à periferia, seja a pequena Belém de Judá: “E tu Belém não és a menor entre as cidades de Judá...”.

O antigo Outeiro do Bagnuolo transformou-se no Morro da Conceição desde 1904 quando Dom Luiz, bispo do Recife mandou construir o monumento em louvor de Nossa Senhora da Conceição. E torna-se no mês de dezembro o “Templo” do Catolicismo Recifense, meio frio, meio sincrético e com ares de libertador-carísmático¹ por parte dos católicos “engajados”.

O olhar do prelado diocesano, naquele iniciar do século XX para os subúrbios recifenses, intuo, não se dava no sentido de “humanizar” a Igreja Católica e levá-la aos pobres e sim evitar que os protestantes conquistassem as populações suburbanas que já construíam desde os finais do século XIX suas habitações nos morros que circundam a cidade antiga e distante dos alagados, geralmente próximos às áreas de antigos engenhos desativados: Um projeto de Cristandade.

Assim a festa do Morro da Conceição, mais que o Carnaval (que é o ápice desse ajuntamento de classes sociais) é o momento em que os ricos, os políticos e as autoridades constituídas visitam e “misturam-se” com os pobres. Madames, vestidas de azul-claro e terço nas mãos, sobem as longas escadarias do morro, pagam suas promessas, vêem os mendicantes, os esgotos que correm a céu aberto pelas valas morro abaixo, sentem os odores e os sons, nem sempre ao gosto da “cheirosa e perfumada” burguesia.

Não pense o leitor que a festa do Morro da Conceição iguale-se em grandiosidade a um Círio de Nazaré - como uma vez me comentou decepcionada uma conhecida minha - mas o Morro se enche de luz e é o momento de ganhar algum dinheiro com a venda de tudo o quanto é possível vender em festa de santo.

É uma festa essencialmente pobre. No alto do morro, até onde a Igreja pode impor suas regras e delimitar seus domínios, só atividades econômicas “pias”, vendas de lembrancinhas (santos, terços, fotos, etc). Embaixo, ao longo da Avenida Norte e Praça do Trabalho, situam-se as barracas de bebidas e os brinquedos dos parques de diversão. É ali que o povão toma a sua cerveja, come seu cachorro-quente, a sua maçã-do-amor, escuta o seu brega e diverte-se até o romper da “barra” da madrugada do 08 de dezembro, quando tudo termina escutando o “Ofício de Nossa Senhora”.

1 Uma mistura dos cacos da Teologia da Libertação dos tempos de dom Hélder e os avanços da Renovação Carismática Católica