quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A QUARESMA, A SEMANA SANTA E A ARTE BARROCA

Que seria da Semana Santa no Brasil sem a arte Barroca? Cristos, manietados, feridos, sofridos. Nossas Senhoras das Dores, da Soledade, da Piedade, chorosas, mães angustiadas. Senhores Mortos, e seus enterros, cobertos, em seus esquifes de pálio roxo, lanternas, tocheiros acompanhados por sua mãe dolorosa, ao som das matracas, meio às grandes e pomposas procissões e cortejos religiosos.


São essas obras de arte, belas e lúgubres, que penetram no imaginário popular católico e não católico no Brasil afora: Manuel Inácio da Costa (1763-1857), o maior santeiro da Bahia do século XVII, e que deixou escola e ainda Félix Pereira Guimarães, (Salvador 1736-1809), Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814) em Minas Gerais, Manoel da Silva Amorim (1870-1873) em Pernambuco, e tantos outros artistas conhecidos e anônimos cujas obras enfeitam e embelezam as nossas seculares igrejas e arruam na Semana Santa.



Senhor Morto. Altar Mor da Igreja da Madre de Deus, Séc. XVIII, Recife/PE


Os êstases dos Santos e Santas Medievais, em comunhão com o eterno, tais como Santa Tereza D'Avila ou São João da Cruz, tão venerados nos séculos iniciais da colonização dos territórios brasileiros, por certo, influenciaram aos artifices daqueles tempos.


Santo Cristo. Altar lateral da Igreja do Espírito Santo de Deus. Século XIX. Recife/PE

Obras de arte feitas em um período de afirmação nacional e também de auto-afirmação da Igreja Católica, em contraponto ao protestantismo mundo afora, tanto na Europa, dividida pelas guerras de religião, quando no Brasil, em formação a partir do século XVII, quando a arte escultórica e pictórica começa a tomar corpo.

São obras que expressam, também, a intimidade mística do artista, que em uitos casos eram membros das confrarias e irmandades daqueles distantes séculos XVII a XIX.

Obras de arte feitas em um período de afirmação nacional e também de auto-afirmação da Igreja Católica, em contraponto ao protestantismo - que abjurava este tipo de expressão artística - mundo afora, tanto na Europa, dividida pelas guerras de religião, quando no Brasil, em formação a partir do século XVII, quando a arte escultórica e pictórica começa a tomar corpo. Era necessário cactequizar o nativo e o africano com expressões fortes do sofrimento inexpugnável de Jesus., que "tanto sofreu, inocentemente, pela humandiade pecadora".

Bom Jesus da Cana Verde ou da Pedra Fria. Autor: Manoel da Silva Amorim. Sec. XIX. Recife, Permanbuco

Bahia, Maranhão, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e o Pará, sem contar as obras pontuais em outras antigas províncias brasileiras, guardam essas obras seculares. Ora utilizadas ainda nas ações litúrgicas e para-litúrgica, ora compondo os museus de arte sacra.


Calvário - Altar lateral da Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antonio, Recife, Pernambuco

Talvez o observador de hoje, de geração mais recente, acostumado a imagens mais "clean", americanizadas, na era do hi-tech, sociedade esta secularizada e mesmo altamente protestanizada, que não acompanhou os rigores quaresmais anteriores ao Concílio do Vaticano II (1962-1965), que expurgou excessos medievais e tridentinos, não seja capaz de entender o que isso possa ou pôde significar.

Bom Jesus da Coluna, Século XIX. Manoel da Silva Amorim. Passos da Paixão

Imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos do Recife (original) século XVII,

Talvez o observador não iniciado neste tipo de arte sacra as abomine. Certamente não entenda que o artista barroco fazia expressar no martírio de Jesus e em suas demais obras os horrores de seu tempo, tanto as torturas praticadas contra o preso comum, quanto àquelas infringidas ao escravo, seja negro ou índio.

Mas, são sobre essas obras de arte que paira a piedade popular católica e certamente a Quaresma e a Semana Santa não teriam seu brilho litúrgico, desnudadas – mesmo que sendo pouco – dos Cristos Crucificados, das Nossas Senhoras Dolorosas e das velhas canções penitenciais, aliadas à "magia" e o silêncio desses dias maiores, dos repicares de sinos e ao cheiro de insenso, exalados pelos turíbulos balançantes.


Todavia, a ênfase maior da piedade Católico- Colonial, refletia-se mais na prisão, sofrimento e morte de Jesus. O Cristo Ressuscitado, embora presente, aqui e ali, é mais raro, na escultura, aparecendo mais na arte pictórica, o que demonstra por certo uma certa descrença neste fato central da fé cristã, mas talvez expresse o medo da morte e do fogo eterno, que aliás era a ênfase maior da Igreja do Concílio de Trento (1545 a 1563).


Imagens: As obras acima são: 1) Senhor Crucificado: Mosteiro de São Bento, São Paulo/SP: 2) Senhor Morto, século XVIII, Matriz da Madre de Deus, Recife/PE: 3) Santo Cristo - Século XVIII - Igreja do Espírito Santo de Deus, Recife. 4) Passos da Paixão: Congonhas do Campo, obra de Aleijadinho; ,3) Manoel da Silva Amorim - Senhora da Pedra Fria (ou da Cana Verde) e Senhor da Coluna; 5) Altar do Calvário Matriz de Santo Antonio do Recife, que o autor deste texto desconhece, até o momento seus autores; 6) Imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos do Recife (original) século XVII,

Texto/Pesquisa: Washington Luiz Peixoto Vieira.
Palavras-Chave: Arte Sacra, Barroco, Imaginário, Imagens Barrocas, Arte Barroca Recife/Olinda?Pernambuco/ Artistas Sacros.

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