segunda-feira, 30 de março de 2020

A QUEM PERTENCE O CADÁVER HUMANO?

O título deste artigo pode parecer pesado, mórbido e bizarro. Pesado não pelo assunto em si, mas porque nos faz refletir sobre um assunto pelo qual há um interdito crescente na sociedade contemporânea.
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Embora, estranhamente nos deleitemos com grandes tragédias alheias: A menina jogada pela janela, a outra morta pelo namorado, menino arrastado pelas ruas em carro de alta velocidade, uma “turista alemã” vítima de um possível complô familiar para receber um alto seguro, ficamos "admirando" as caçambas repletas de cadávares, como foi o caso do Haiti, com olhos fixos na TV, e por aí vai.
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Paradoxalmente, a nossa morte e dos nossos parentes,entendemos ser assunto privado, não diz respeito a ninguém. Negamos e escondemos as doenças. As mortes, infelizmente, temos que proclamá-la ela é um assunto público, o óbito é publico, gera direitos e deveres aos vivos, se não o fosse, possivelmente diríamos: “Fulano está viajando”, como geralmente enganamos as crianças..
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Negamos a morte da mesma forma que negamos e escondemos os nossos insucessos, como se a morte fosse um fruto de nossa incapacidade de viver e não algo tão natural como o nascer...
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E um tema doloroso que sempre adiamos: A Morte. Principalmente quando se trata da nossa própria ou da daquelas pessoas a quem queremos bem. É algo doloroso, cruel, irreversível, incompreensível. Buscamos sempre para ele subterfúgios para dele fugir. Mas, infelizmente, não podemos é tema real, um dia a mais, outro a menos, ele está ali na porta, ou melhor em nós mesmos: Seremos cadáveres!
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Não mais seremos, seremos apenas “espólio” no que nos restou da labuta, daqueles dias que o nosso desejo de ter nos embotou a vista, perturbou nossas relações humanas, interferiu nas nossas relações amorosas... Muitas vezes deixamos de assumir amores – proibidos ou consentidos – pelo simples fato da inconveniência social, racial, étnica e, principalmente econômica... Pensávamos – nós e nossos pais – sermos eternos. Coitados!
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Deixamos a ambição e o preconceito ser maiores que nós e nossa felicidade!Mas, passados os anos, ou não, morremos. Viramos o que os juristas de até então designam de “coisa nula”.Triste, mas real. Seremos – somos – cadáveres. Prontos à inexistência. Imediatamente passíveis à podridão.
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Num primeiro momento há a cessação de todos os fenômenos vitais, totalmente, definitivamente. Todo o nosso organismo, antes tão organizado, entrou em colapso, nossas células, tecidos, órgãos vitais paulatinamente, misteriosamente vão deixando a vida. Enfim, morremos!
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E aí. Nós, eu e você, amigo leitor, seres humanos livres, impertencíveis a ninguém, deixamos de ser. Somos apenas um simples Cadáver, despojos, restos mortais e nossos bens (ou não bens) Espólio.

Passamos a ser uma “coisa” pertencente ao Estado. Isso mesmo ao Estado. Não somos propriedade absolutamente de ninguém. Mas ninguém ao mesmo tempo, pode absolutamente lançar a mão sobre o que éramos.
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O cadáver – nós já não somos – não pertence á família. O primeiro passo para constatar este fato é registrar o Óbito. Ou seja registrar a inexistência de alguém. Se alguém não mais existe, ele não é, ela não pertence a mais nada, ela é nula, já era...
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Daí por diante, conforme a causa mortis o cadáver – puro descarte e prova que ali existiu um CPF é propriedade do Estado. E o Estado nos quer? Ele não tem essa capacidade de querer, ou não, já somos parte integrante dele, o problema são os governos, a estes já bastam as responsabilidades com os vivos...
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A piedade cristã, felizmente, tratou de remediar essa questão juridicamente fria, e deu dignidade ao morto, e instituiu na legislação e na cultura, o respeito aos mortos, que na nossa legislação deu uma espécie de Estatuto dos Defuntos, não permitindo que os despojos humanos fossem tratados como lixo, ou simples coisas. Permitiu que a família ou aqueles a quem a proximidade o/a tenham como tal, dêem ao morto, a possibilidade de não virar peça de necropsia ou alimentos para urubus. Mas não esqueçamos os cadáveres não são propriedade de ninguém, por mais digno e belo que seja o monumento fúnebre e mais importante o morto.
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Mas queiramos ou não, nossos falecidos corpos são pertencentes ao Estado. Mas o Estado, nem a família, não tem o direito de arrancar qualquer parte do morto, e doá-los a ninguém se o “vivo” assim não o designasse. Não pode “cremar” ou dar outro destino senão o tradicional “enterro” sem que o Estado, através do Judiciário assim o determine, e neste caso com muita prudência, preservando a memória do “de Cujos”, as não ser por razões de Estado, in caso as epidemias ou o perigo á saúde pública. Mortos seremos, ou não, com grandes possibilidades, perigo, aos vivos.
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Triste, não é? Mas é a verdade!
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E por fim, caso você e eu, disponhamos de um jazigo digno, luxuoso, ou tenhamos nada, a não ser terra fofa sobre o nosso vil cadáver. Ninguém, nem nossos parentes, nem nossos amados familiares, que podem ser – ou não – sepultados amorosamente conosco, serão e seremos esquecidos, ossos e não ossos, em tão pouco tempo, que esse artigo é de uma inutilidade cadavérica.
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Quem sabe, discutiremos esse assunto no Céu!
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Descansemos em Paz!


Texto de Washington Peixoto Vieira, escrito na madrugada do dia 07 de abril de 2010.



Imagem:
1. A Lição de Anatomia do Dr. Nicolas Tulp, de 1632 (Mauritshuis, Haia. Obra de Rembrant.
2. Hans Baldung, Death and the Woman, c. 1518-1519.
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Algumas Referências: Philipe Ariès publicou a "História da Morte no Ocidente", traduzida no Brasil pela Editora Francisco Alves, do RJ, em 1977.
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Legislações sobre doação de órgãos ou tecidos:
Lei nº 8.489/97 - Lei dos Transplante;
Lei nº 9.394/97 - Caracterização do Doador presumido (parcialmente revogada);
Lei nº 10.211/2001 - Alteração da Lei 9.394/2001 - Condiciona a retirada de órgãos à autorizção do cônjuge ou parentes de maior idade na linha sucessória reta ou colateral.

domingo, 19 de janeiro de 2020

PADRE FELIPE BENÍCIO MARIZ (1780 - 1850)



A neblina caia sobre a Vila, fazia frio, o centenário sino já tocara a chamada da missa. O Padre Felipe, como sempre com seus hábitos sertanejos acordara cedo e já se preparava na sacristia lateral da Matriz* para a celebração de sua desobriga cotidiana. Lera o breviário rapidamente. Seu pensamento estava em seu Icó. Faltava-lhe o cheiro do gado, sentia falta do calor, da coalhada e do leite ainda quente que chegava da fazenda. Chegara à Vila Viçosa fazia dois anos. Saíra do Icó, após os embates de 1817, do qual lutara contra os revolucionários, uma vez integrante do partido conservador. Nunca quisera ser padre, porém a imposição do pai Manoel Teixeira assim o determinava:

- "Pai, eu não dou pra essa coisa! Quero ser capitão do exército. O soldo é bom!'

- "Ora Felipe, não me desobedeça. Vosmissê já tem nome de santo. Você será o padre da família. João André já está encaminhado na carreira militar; um no exército outro na Igreja; dessa forma nos garantimos no Icó: O Vigário e o Capitão-Mor!"

Eis o pensamento de Manoel Alexandre, o patriarca dos Teixeira. - A ideia tinha surgido desde quando o batizou com o nome de São Felippe Benício e quando percebeu que o menino não saia da sacristia da Igreja da Expectação, ajudando como coroinha e servindo de testemunha em casamentos - E assim foi decidido o destino para aquele seu filho nascido em 23 de agosto de 1780. Dona Ana Macedo de Jesus Maria, sua mãe, trineta de Jerônimo de Albuquerque, só teria que concordar.

(Matriz de Nossa Senhora da Expectação, em Icó, Ceará, vendo-se ao lado o sobrado de João André Teixeira Mendes, o "Canela Preta")

Ingressando no Seminário de Olinda, o foco da formação liberal no Brasil, por volta de 1797, ali permanece até 1800, quando é ordenado por dom José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho (1795 – 1802), que fora o bispo fundador do famoso seminário e não ligava bulhufas para a “vocação sacerdotal”. Homem das luzes, sua intenção era formar homens para a mudança cultural do nordeste, e dar-lhes uma formação variada que ia da medicina à noções de filosofia, teologia e conhecimentos gerais, não negando os rudimentos do latim para rezarem as missas.

Do seminário da Olinda, e das turmas contemporâneas de Felipe Benício saíram todos os revolucionários de 1817 e 1824, incluindo-se: Miguel de Almeida e Castro (Frei Miguelinho) (1768-1817), Joaquim do Amor Divino Caneca (1779 – 1825) e José Martiniano de Alencar (1794-1860), dentre outros.

Ali, no Seminário de Olinda, o seminarista Felipe mudaria de idéia com relação ao presbiterato e veria que muito poderia fazer como padre católico. Era verdadeiramente um passaporte para o mundo da política. Quanto à castidade: às favas. Todos tinham mulher e filhos. Por qual razão ele seria diferente?

Assim, pois o Padre Felipe Benício Mariz canta a sua primeira missa solene, na Matriz da Expectação, parede e meia da casa do irmão João André, em Icó. Dia festivo naquele iniciar do século XIX. Certamente algumas cabeças de rês, perus e galinhas foram preparados para o banquete servido no sobrado da família. Toda a aristocracia icoense por ali , estava incluindo os coronéis Bernardo Duarte Brandão (pai) e Francisco Fernandes Vieira (1784-1862), o futuro barão e visconde do Icó.]

A carreira eclesiástica, era verdadeiramente um dos raros ofícios de futuro naquele Brasil oitocentista. E tinha que correr-se atrás dos postos nas vigararias que iam vagando e as que eram sendo criadas. Conchavos com a corte para as nomeações que dependiam do Príncipe Regente, que pagava os salários a essa classe de funcionários públicos. E assim, pois, é que vamos encontrar registros do nosso padre na capelania de Maria Pereira – a atual Mombaça – termo e freguesia do Icó entre 1805 – 1806.

E, o encontraremos novamente, em 1819 na distante serra da Ibiapaba tomando posse como Vigário Colado da Freguesia de Nossa Senhora da Assunção da Vila de Viçosa Real. O antigo aldeamento missionário Jesuítico e na condição de umas das várias Vilas de Índios da Província do Ceará e à época – como o Icó – integrantes da Província Eclesiástica de Olinda.



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O VICARIATO DO PADRE FELIPE BENÍCIO MARIZ EM VILA VIÇOSA REAL - 1819 A 1842

O vicariato colado do Padre Felipe Benício Mariz na Freguesia de Nossa Senhora D’Assunção da Villa Viçoza na Província do Ceará está registrado entre 1819 a 1842, portanto 23 anos, uma das mais longas administrações daquela freguesia. Durante esse tempo houve três substituições temporárias nas quais atuaram os padres José Gomes Torres, Urbano Pessoa Montenegro e Manuel Pacheco Pimentel. Esses períodos equivalem aos afastamentos após uma agressão – que falaremos abaixo – e sua atuação na Confederação do Equador e posteriormente como Presidente do Governo Provisório do Icó, em repressão aos Confederados (de outubro a novembro de 1824) e outros afastamentos por razões particulares.

Felipe nunca se acostumou na Villa Viçoza, cujo termo consistia dos lugares de São Pedro de Ybiapina, S. Benedito, ao todo 14.821 almas. (in Ensaio Estatístico, Título XIII, ano de 1864).


Nada ali lhe agradava. Irritava-se com tudo, achava-se superior a população local. Aristocrático, com escravaria, tinha ancestrais ligados à própria história de Pernambuco. Isso contribuía para a sua inadaptabilidade na Villa Viçoza, uma Vila de Índios, que “foi creada freguesia em 1759, e villa em 7 de julho do mesmo anno” era termo de Granja, para onde o Padre Mariz deslocava-se sempre que podia. O vilarejo (urbe e sítios), contava com 6.622 pessoas, sendo 3.475 homens e 3.147 mulheres, haviam 100 escravos, 54 homens e 44 mulheres, certamente 20 ou 30% desse total pertenciam à Nossa Senhora da Assunção.





                          (Antigo sacrário da Matriz de Viçosa do Ceará, obra do século XVII)

A Vila, à sua chegada tinha "130 casas de telha, uma escola primária para meninos, e outra para meninas" (2), 91 funcionários públicos, inclusos nessa conta juízes, suplentes, promotor, escrivão, delegados, soldados, carcereiro, pároco, coadjutor, sacristães, professores, inspetores, coletores gerais, camaristas outros empregados – era a “máquina administrativa”.


A Igreja Matriz, diferentemente de sua amada Expectação do Icó, não tinha sido concluída, coberta de palhas, com o forro da capela-mor com estanhos desenhos escuros do tempo dos Jesuítas, tinha vontade de cobri-los de branco, porém a escuridão do templo pela total falta de janelas fazia que aquelas pinturas ficassem ali, meio à sujeira e umidade que a cada inverno ameaçava ruir.



Mangas, jacas, e o nobre abacate das guianas francesas, Como se não bastassem as questões climáticas que o irritavam, havia os mosquitos: Ah, os malditos mosquitos! Sua pele de Teixeira, branca avermelhada, geneticamente frágil ao clima dos trópicos, enchia-se de pústulas e perebas. Era o fim... um inferno.
                        (Antigo sacrário da Matriz de Viçosa do Ceará, com altar jesuítico do século XVII)


De tudo fazia para sair daquele “detestável” exílio... cartas e queixumes ao bispo de Olinda, gestões políticas, nada: Era o “Vigário Colado” da Freguesia de Nossa Senhora da Assunção da Villa Viçoza Real das Américas. O bispo de Olinda queria, de fato, mantê-lo longe das brigalhadas e confusões de sua família no Icó. Dali não sai, dizia o prelado olindense. E não sairia.
Era irmão do temível Capitão-Mor do Icó, o Tenente-Coronel João André Teixeira Mendes. Gostava da frugalidade do sertão.


Vez por outra saboreava, às escondidas, algum gole de vinho de missa trazido à muito custo à lombo de burro. Cachaça nem pensar, detestável, vício de párias, igualava-o a caboclada inveterada no aguardente. Era Sacerdote Católico, um nobre, um superior no meio da gentalha ignorante e analfabeta, descendentes de índio. Aqueles mesmos índios que seus ancestrais haviam liquidado para expansão do gado bovino pelos sertões e que ele, vez por outra, mandava - como também seus antecessores - algum indio-escravo mais desobediente ou intransigente para o pelourinho, de frente à matriz, diferentemente dos paternais jesuítas que por ali estiveram, há somente 62 anos, expulsos que foram em 1759.



As cunhãs, vez por outra, acostumadas aos desejos carnais de seus antecessores, insinuam-se ao padre. Ele na efervescência de sua virilidade - 39 anos, afastava-se. Até aí o Mariz (Teixeira Mendes), ao que tudo indica até aquele momento em 1921, mantinha-se longe de relações amorosas. Seu pensamento estava em sua carreira política e eclesiástica.


Os únicos momentos que a paz lhe chegava ao espírito era quando descia a serra rumo ao Piauí e lá nos sertões quentes, iguais ao do Icó, montado em seu cavalo percorria as terras da Fazenda Tiaia, o único remanescente do patrimônio dos Jesuítas, com a sobra das cabeças de gado doadas em 1710 por Francisco da Cunha, que ora minguavam, pela seca e pela venda para manutenção dos padres diocesamos e da paróquia que dispunha desse único recurso.

Isso tudo fazia com que os caboclos, insuflados pelos brancos locais odiassem o Vigário, de forma que entre 30 e 31 de julho de 1822, foi acometido de grave ofensa na Vila, conforme o seguinte registro feito após outro acontecido similar em Maranguape.

Os documentos (1) a seguir não esclarecem suficientemente os motivos do levantamento dos íncolas maranguapenses, atribuído pelas autoridades à influência do havido pouco antes, em 30 e 31 de julho, na Vila Viçosa Real, quando um agrupamento indígena expulsara da freguesia o Vigário Felipe Benício Mariz” (in Revista do Instituto do Ceará, 1995, documentário Índios Revoltosos no Ceará)

Villa Viçoza não era uma terra sem lei. Haviam 2 Juízes, suplentes, promotor, escrivão, delegado, subdelegado, suplentes destes, escrivães, carcereiro, enfim todo o Aparelho Repressor de Estado. Aquilo que aconteceu com o Padre Felipe Benício Mariz, se deu sob as vistas da administração e dos homens públicos. Não foi nada "engraçado" como se vê - ainda nos dias atuais - em crônicas contemporâneas, fora uma afronta direta ao poder da Igreja, um dos braços da coroa. Houve naquele episódio a omissão dos homens e poderes públicos. Fora afrontado por um grupo de índios e caboclos rebeldes, dentro do recinto da Igreja, que o teriam esbofeteado e o colocado sobre um jumento velho de volta para o Icó, fato esse marrado e renarrado pelos cronistas da época, houve quem visse no fato a repetição do que ocorrera com o padre Francisco Pinto, em 1608.

Não contavam os revoltosos que essa ação seria punida severamente, como aconteceu em Maranguape, cujos índios revoltosos foram enviado presos a Pernambuco. E os brancos insuflantes não sabiam que por trás do nome Mariz estava escondido o Teixeira Mendes, irmão legítimo, de pai e mãe, de João André, o já famoso "canela-preta do Icó" e um aliado do poder. O padre Mariz voltaria para Viçosa por volta de 1826/27, certamente muitas cabeças rolaram. Os que se omitiram do fato, ou mangaram do eclesiástico enxotado, certamente tiveram o seu quinhão.

Dali por diante Mariz, e sua família, hão de vingar-se de tudo e de todos aqueles que interferirem no seu poder. Ninguém ousava se meter nas questões religiosas em Viçosa. Mesmo encontrando-se Benício Mariz com 71 anos, doente, acometido de isquemia cerebral, entrevado “no fundo da rede”, sua mulher e o filho Felipe Teixeira eram os administradores paroquiais.

De forma que em 1841 o padre Maximiano José Valcácer foi nomeado e enviado para Viçosa em 1841, pelo bispo de Olinda Dom João da Purificação Marques Perdigão (1831-1864), cuja missão era resgatar os bens da freguesia, então em poder dos familiares do padre. A missão do religioso acabou de forma trágica, sendo assassinado em 10 de dezembro de 1842.

A questão do patrimônio foi parar na justiça, sendo revolvido apenas por volta de 1860, quando era vigário o padre José Beviláqua e Benício Mariz já havia morrido.





TEXTO PUBLICADO ANTERIORMENTE EM 2014


VIEIRA, Washington Luiz Peixoto. Personagens históricos: padre Felipe Benício Mariz (1780-1850) – Parte I. Opinion, abril de 2009. Disponível em: . Acesso em: 7 jul. 2015.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

SÉRIE IRMANDES E CONFRARIAS DO RECIFE: IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS DO RECIFE – SÉCULO XVII



A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário foi criada e ereta na Igreja de São Frei Pedro Gonçalves, onde já existiam na mesma freguesia a primitiva Confraria de São Frei Pedro Gonçalves, composta por homens do mar, que remonta à pequena ermida existente antes da ocupação holandesa, e as eretas em 1654, sejam, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, composta de homens “bons”, a Irmandade do Bom Jesus dos Passos, fundada pelos restauradores pernambucanos e homens diversos segmentos classes sociais, que lutaram na guerra de restauração, e da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário[1], e esta irmandade formada por homens negros e ou descendentes diretos de africanos. 

Narra-nos Domingos Couto (1904) que

Os homens pretos e cativos se mostram tão afetuosos no amor e no serviço da Mãe de Deus, a Senhora do Rosário, que eles mesmos, ainda que pobres, resolveram fundar uma formosa igreja em que eles são os fundadores e administradores. É este um templo de curiosa e suntuosa estrutura, e, o seu frontispício, pomposa fábrica de pedra branca, é admirável desempenho da arquitetura edificativa”. [2]


Domingos couto refere-se à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, dizendo que esse sodalício  passou a construir para sua sede e culto logo após a sua fundação, na Vila de Santo Antonio do Recife,  em nova de expansão do hoje bairro de Santo Antonio e seus aterros, no século XVIII, de forma que, segundo Guerra (1978), em 1678, documentos de receita e despesa, registram a confecção de um púlpito de jacarandá, e douração do altar-mor da nova igreja em 1699, em  1706 os irmãos “estavam decididos a mandar buscar em Lisboa todos os materiais necessários para forrar-se a capela-mor com frisos de ouro“.

O espírito que unia aqueles homens e mulheres, segundo Guerra (1978), “transportados para terras longes e estranhas, como humilhantes escravos, uniam-se então na dor e na miséria, constituindo-se muitas vezes em novas nações, com costumes mesclados, a receber influências dos hábitos isolados de cada uma, ritos ancestrais, adaptados e harmonizados com o novo meio ambiente e sua condição de escravos”[3]



Desta primitiva irmandade surgiram várias outras novas irmandades do Rosário ou de santos correlatos aos cativos negros e seus descendentes, “dentre as principais devoções, destacavam-se santos de origem africana, de cor negra – dentre os quais figuravam Santa Efigênia (responsável por disseminar o cristianismo na Etiópia), Santo Elesbão da Abissínia e o monge franciscano São Benedito”, mas cuja devoção central era à Nossa Senhora do Rosário.[4]


           
Eram famosasas coroações de reis e rainhas de Angola na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio do Recife, por sua vez, são documentadas a partir de 1674.  Das nações dos negros, era do Congo a que mais se destacava dentro das irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito, cuja função não era tão-somente cerimonial, como deixa entender a descrição de alguns viajantes, mas um encargo administrativo, do interesse do Governador da Capitania e do bem público, com a função de “inspecionar e manter a ordem e subordinação entre os pretos que lhe forem sujeitos”. [5]

Existem muitos registros sobre a correlação da Igreja do Rosário e sua Irmandade com movimentos religiosos e culturais, tais como nos narra Guerra (1978) que por ocasião dos festejos  “(...) celebravam em seu louvor festas e danças no uso de seu país natal; essas danças eram batuques e maracatus”, bem como coroações do reis negros do Congo”

Embora a Festa de Nossa Senhora do Rosário, de forma católica tenha declinado ao longo do século XX, ao ponto de ser desconhecida a data e horário ao grande público, a devoção à Santa expandiu-se e desmembrou em outras irmandades com a mesma espiritualidade.

         Essa Venerável Irmandade existe (e subsiste) desde o Século XVII, até os dias atuais, embora com um número reduzido de irmãos e irmãs, trazidos pelas vicissitudes dos tempos, tendo enfrentando todas as dificuldades, desde a época da escravidão, às interferências das autoridades eclesiásticas em todas as épocas, às quais tratarei, mais amiúde, em artigos posteriores, deixando aqui registrado, apenas os marcos iniciais deste importante Sodalício recifense.
  





[1] O culto a Nossa Senhora do Rosário, vem desde a Idade Média, quando a Virgem aparecera a  São Domingos de Gusmão em 1208 na igreja do mosteiro de Prouille, entregando-lhe o Saltério Angélico, qual seja o  Santo Rosário, que seria uma arma poderosa de oração. Pela facilidade de recitação e meditação de seus mistérios, o Rosário difundiu-se facilmente pela piedade popular. O fato de maior relevância atribuído ao Santo Rosário foi a Vitória de Lepanto, que é “lembrada como uma vitória da Igreja sobre o avanço do Império Otomano ( os islâmicos) que pretendiam estender seus domínios e assim acabar com o cristianismo na Europa. É uma vitória, que dependeu da aliança de reis católicos, muitos deles em conflito uns com os outros. Mas também é atribuída à intervenção da Virgem Maria do Rosário. O Papa São Pio V havia confiado na oração especialmente do rosário, jejum e penitência para alcançar essa vitória.”[1] , em 7 de Outubro de 1571. O fato de maior relevância atribuído ao Santo Rosário foi a Vitória de Lepanto, que é “lembrada como uma vitória da Igreja sobre o avanço do Império Otomano ( os islâmicos) que pretendiam estender seus domínios e assim acabar com o cristianismo na Europa. É uma vitória, que dependeu da aliança de reis católicos, muitos deles em conflito uns com os outros. Mas também é atribuída à intervenção da Virgem Maria do Rosário. O Papa São Pio V havia confiado na oração especialmente do rosário, jejum e penitência para alcançar essa vitória.”[1] , em 7 de Outubro de 1571. O fato de maior relevância atribuído ao Santo Rosário foi a Vitória de Lepanto, que é “lembrada como uma vitória da Igreja sobre o avanço do Império Otomano ( os islâmicos) que pretendiam estender seus domínios e assim acabar com o cristianismo na Europa. É uma vitória, que dependeu da aliança de reis católicos, muitos deles em conflito uns com os outros. Mas também é atribuída à intervenção da Virgem Maria do Rosário. O Papa São Pio V havia confiado na oração especialmente do rosário, jejum e penitência para alcançar essa vitória.”[1] , em 7 de Outubro de 1571. 


[2] Couto, Domingos Loreto, Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Vol XXIV, 1904

[3] Guerra, Flávio, Velhas igrejas e subúrbios históricos, Recife: Fundação Guararapes, 1970, p. 111
[4] Irmandades Negras. Patrimônio Espiritual. Disponível em: < https://patrimonioespiritual.org/menu/irmandades-de-negros/>. Acesso em 16 mar. 2017.

[5] Diário de Pernambuco, 20 de setembro de 1848”